sábado, 28 de janeiro de 2012

Infinito

Tudo que me lembrava era de vê-lo partir.

E sabia que com ele estava uma parte importante de mim. A mais importante.
Meus olhos agora cheios de lágrimas se estreitaram pelo quarto em que eu estava, levantei caminhando até a porta, com minha blusa cinza e um short qualquer.
Parei abaixando os olhos, encontrando o pingente esférico em meu bolso, ele havia me dado no natal, era lindo e com brilhos azuis, era perfeito.

Uma lágrimas libertara-se calmamente e eu coloquei o pingente no pescoço, olhei para o lago a minha frente, e lembrei de suas ultimas palavras, de sua breve despedida, no meu bolso direito peguei sua carta, lendo em letras rabiscadas, contando-me seus motivos, nosso fim, meu fim.
Forcei minhas pernas fracas a se firmarem de pé e segui por toda a praça, logo sentando em um banco, fechei os olhos e podia jurar sentir seu cheiro, presente, eu era ainda louca por ele.
- O que faz aqui? - levei um belo susto com aquela voz de veludo.
Olhei para o lado, surpresa.
- Hum...
- Esta chorando? - observou ele e eu limpei rapidamente os olhos com a manga da blusa.
- E-eu to bem - menti.
Ele se colocou ao meu lado, deixando sua bicicleta de lado.

Ele olhou bem de perto, agora colocando seus óculos, ele odiava usá-los, mas eu o achava perfeito assim.
- Nunca vou me acostumar com eles - admitiu me olhando por sobre as lentes.
Como sempre, ajeitei os óculos dele e ele abriu-me aquele seu sorriso perfeito.
Ver aquele sorriso interrompeu meus pensamentos, mas logo me enchi de questões a seu respeito, antes que eu dissesse algo ele repousou seu polegar sobre meus lábios.
- Eu... Tive uma doença rara... Não queria que sofresse, achei que deixá-la assim seria melhor - explicou e beijou meu rosto - Mas esqueci meu coração com você.
Tentei sorrir, quase sem sucesso.
Ele colocou a mão no meu pingente, me olhou com ternura.
- Você ainda a usa.
- Você vai voltar? A.. doença.. Você se curou? - perguntei rapidamente, preocupada, pegando sua mão.
- Ei, acalme-se - pediu tocando meu rosto - Eu quero que saiba que não a deixei por não a querer mais, mas para não a magoar ainda mais, minha querida.
- Eu sei, mas... Você vai voltar? - insisti.
Com um sorriso sutil nos lábios ele aproximou o rosto do meu.
Seus dedos em minha bochecha eram frios, mas reconfortantes, seu hálito era congelante sobre minha face, fitei seus olhos castanhos e esperei seu beijo, mas antes ele me disse algo, bem baixo.
- O destino é um quebra-cabeças, minha querida, é infinito... Talvez um dia, eu volte para você - e me beijou ternamente.
Aproveitei daquele beijo ao máximo que pude e seus dedos ficaram em meu pingente por um minuto, quando abri os olhos sentia a brisa acariciar minha face e diante de mim só seu perfume, não fora um sonho, não fora fruto de minha imaginação.
Ele viera me ver... Apesar de não estar mais comigo sabia deste sentimento infinito.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sub-mundo

Não era apenas outro lugar, era diferente.
Por que eu viera parar ali? 
Eu estava acostumada a ser enviada por vários sub-mundos, para aprender e poder me tornar a deusa, mas nunca estivera em um lugar desse.
Do meu lado, lá estava o mar, ao distante via-se uma cidade, escura, os raios tocavam o chão, um deles agora estava do meu lado e o toquei, levemente passando a mão naquela energia clara que me fortalecia até a ultima gota de sangue e alma.
Caminhei lentamente até a água, estava fria, havia uma pequena correnteza, meu sapato chegou a alcançá-la e eu sabia que não havia molhado, forcei outro passo mais largo, andando sobre a água, tentando lembrar minha missão da vez, sabia simplesmente que não tinha medo. Eu repetia isto a mim mesma algumas vezes, era simples, sempre fora, só tinha um pequeno detalhe, podia-me ser letal.
Parei. 
Fitei a água escura, quase negra, os corpos no fundo eram tão brancos que eu podia vê-los, talvez aquilo fosse uma armadilha. Olhei envolta novamente, nada além de árvores. Segui em frente, agora aproveitei-me do raio que decaíra em minha direção, tirando do mesmo duas tiras, formando delas armas, espadas. 
Observei rapidamente o vestido negro no qual eu esbanjava, era comprido e frio como a noite, me dava uma visão de crueldade, eu gostava desta sensação.  
Abaixei os olhos um instante, quando os levantei podia ver à água se levantar um pouco, distante de mim, mas o cheiro dela, não era um simples cheiro de água, tinha sangue, sangue novo... Recém-retirado de alguma vitima talvez saborosa.
Mordi o lábio lembrando do sabor de sangue quente nos meus lábios, esbocei um sorriso pelos lábios agora sedentos, mas sabia do veneno que escorria lentamente pela aquelas águas. Aumentei a velocidade com que andava, chegando a pequena cidade, meu vestido não se molhara, nem meus sapatos desnecessários, tirei o par, jogando na água, onde afundou rapidamente. Descalça, segui pela cidade deserta, com grades enormes avistei o castelo, passei as grades sem ter de abrir o portão e olhei lá embaixo, estavam lá, pessoas comuns andando pelo pequeno salão escuro, me perguntei o que faziam ali e se não sentiam assim como eu o cheiro da morte aos arredores daquele cubículo. Então o vi.
A lágrima negra que me escorreu os olhos não atingiu o chão quando saiu da minha face, ela apenas parou na minha mão, formando lentamente uma  palavra, que li rapidamente na contingência de que viesse a me guiar.
Fechei os olhos levemente, levando o choque de que já sabia o porquê de estar naquele lugar. A última imagem estampada em minha mente era dele, da ultima vez que o vi. Ele era o causador, mas não o motivo de eu estar ali.
Sem fazer bagulho fui pelos arredores daquele castelo, escuro agora, as vozes que me sussurravam para voltar, a minha consciência fazia o mesmo, ciente de minha possível morte ou talvez eu simplesmente ficasse preza aquele lugar. Valeria a pena. Eu tinha que tentar.
Ao virar o ultimo corredor vi a pequena cela, fechada, só uma pequena grade, seus cabelos vermelhos eram enormes e emergiam aquele cheiro de fogo, como se estivesse queimando ainda, não falei com ela, apenas joguei-lhe uma das espadas que fiz através do raio obtido. 
Ela chamou por meu nome, mas nada respondi, ajeitei minha espada, posicionei-me agora descendo as escadas, prestando atenção nos sons, em cada pequeno pingo de chuva que escorria pelo chão. Até chegar onde estavam aquelas pessoas, me olharam, algumas confusas, outras se encolheram e quando pisquei os olhos só ele estava lá, me olhando.
Trinquei os dentes agora vendo o que ele fizera, os crânios pelo chão, um exatamente no meu pé. Agora as vozes em minha mente sussurravam, eu tinha que matá-lo. Era esse o preço do meu erro, o preço da minha fraqueza.
Ela apareceu do meu lado, machucada, com sangue escorrendo pelo corpo, mas agora estava pronta novamente para me proteger, minha melhor amiga, minha irmã. Meu talismã.
Levantou-se e se colocou ao meu lado, seu sangue pingava e eu fixei-me nele, esquecendo o mundo a volta, ele tirou o capuz, eu jamais esquecera o quão belo era e o quão sedutor eram aqueles lábios finos, ele sorriu, sabia o que passara-se na minha mente, ele lia-a com muita facilidade. Eu odiava isso. Seu sorriso cruel se ampliara e só vi minha irmã atacá-lo.
Ela não podia matá-lo, sabia disso, era o meu preço, era o meu castigo. Ela o colocou contra a parede e olhando em seus olhos em avancei o passo, levantando minha espada, respirei fundo, ele implorou minha ajuda, dizendo que me amava, que me salvaria. 
Acreditei. Enfiei a espada em seu peito, agora sentindo a minha mente girar, o mundo a minha volta mudara, tudo que era escuro tornou-se claro.
Eu acreditara em seu amor, acreditara em suas palavras, por isso eu pagara. Eu pagara o preço de uma paixão incorreta, de uma paixão inexistente, mas que fortaleceu-me a alma e o coração, e agora eu conseguira salvar o sub-mundo.
Eu estava pronta.