Por que eu viera parar ali?
Eu estava acostumada a ser enviada por vários sub-mundos, para aprender e poder me tornar a deusa, mas nunca estivera em um lugar desse.
Do meu lado, lá estava o mar, ao distante via-se uma cidade, escura, os raios tocavam o chão, um deles agora estava do meu lado e o toquei, levemente passando a mão naquela energia clara que me fortalecia até a ultima gota de sangue e alma.
Caminhei lentamente até a água, estava fria, havia uma pequena correnteza, meu sapato chegou a alcançá-la e eu sabia que não havia molhado, forcei outro passo mais largo, andando sobre a água, tentando lembrar minha missão da vez, sabia simplesmente que não tinha medo. Eu repetia isto a mim mesma algumas vezes, era simples, sempre fora, só tinha um pequeno detalhe, podia-me ser letal.
Parei.
Fitei a água escura, quase negra, os corpos no fundo eram tão brancos que eu podia vê-los, talvez aquilo fosse uma armadilha. Olhei envolta novamente, nada além de árvores. Segui em frente, agora aproveitei-me do raio que decaíra em minha direção, tirando do mesmo duas tiras, formando delas armas, espadas.
Observei rapidamente o vestido negro no qual eu esbanjava, era comprido e frio como a noite, me dava uma visão de crueldade, eu gostava desta sensação.
Abaixei os olhos um instante, quando os levantei podia ver à água se levantar um pouco, distante de mim, mas o cheiro dela, não era um simples cheiro de água, tinha sangue, sangue novo... Recém-retirado de alguma vitima talvez saborosa.
Mordi o lábio lembrando do sabor de sangue quente nos meus lábios, esbocei um sorriso pelos lábios agora sedentos, mas sabia do veneno que escorria lentamente pela aquelas águas. Aumentei a velocidade com que andava, chegando a pequena cidade, meu vestido não se molhara, nem meus sapatos desnecessários, tirei o par, jogando na água, onde afundou rapidamente. Descalça, segui pela cidade deserta, com grades enormes avistei o castelo, passei as grades sem ter de abrir o portão e olhei lá embaixo, estavam lá, pessoas comuns andando pelo pequeno salão escuro, me perguntei o que faziam ali e se não sentiam assim como eu o cheiro da morte aos arredores daquele cubículo. Então o vi.
A lágrima negra que me escorreu os olhos não atingiu o chão quando saiu da minha face, ela apenas parou na minha mão, formando lentamente uma palavra, que li rapidamente na contingência de que viesse a me guiar.
Fechei os olhos levemente, levando o choque de que já sabia o porquê de estar naquele lugar. A última imagem estampada em minha mente era dele, da ultima vez que o vi. Ele era o causador, mas não o motivo de eu estar ali.
Sem fazer bagulho fui pelos arredores daquele castelo, escuro agora, as vozes que me sussurravam para voltar, a minha consciência fazia o mesmo, ciente de minha possível morte ou talvez eu simplesmente ficasse preza aquele lugar. Valeria a pena. Eu tinha que tentar.
Ao virar o ultimo corredor vi a pequena cela, fechada, só uma pequena grade, seus cabelos vermelhos eram enormes e emergiam aquele cheiro de fogo, como se estivesse queimando ainda, não falei com ela, apenas joguei-lhe uma das espadas que fiz através do raio obtido.
Ela chamou por meu nome, mas nada respondi, ajeitei minha espada, posicionei-me agora descendo as escadas, prestando atenção nos sons, em cada pequeno pingo de chuva que escorria pelo chão. Até chegar onde estavam aquelas pessoas, me olharam, algumas confusas, outras se encolheram e quando pisquei os olhos só ele estava lá, me olhando.
Trinquei os dentes agora vendo o que ele fizera, os crânios pelo chão, um exatamente no meu pé. Agora as vozes em minha mente sussurravam, eu tinha que matá-lo. Era esse o preço do meu erro, o preço da minha fraqueza.
Ela apareceu do meu lado, machucada, com sangue escorrendo pelo corpo, mas agora estava pronta novamente para me proteger, minha melhor amiga, minha irmã. Meu talismã.

Levantou-se e se colocou ao meu lado, seu sangue pingava e eu fixei-me nele, esquecendo o mundo a volta, ele tirou o capuz, eu jamais esquecera o quão belo era e o quão sedutor eram aqueles lábios finos, ele sorriu, sabia o que passara-se na minha mente, ele lia-a com muita facilidade. Eu odiava isso. Seu sorriso cruel se ampliara e só vi minha irmã atacá-lo.
Ela não podia matá-lo, sabia disso, era o meu preço, era o meu castigo. Ela o colocou contra a parede e olhando em seus olhos em avancei o passo, levantando minha espada, respirei fundo, ele implorou minha ajuda, dizendo que me amava, que me salvaria.
Acreditei. Enfiei a espada em seu peito, agora sentindo a minha mente girar, o mundo a minha volta mudara, tudo que era escuro tornou-se claro.
Eu acreditara em seu amor, acreditara em suas palavras, por isso eu pagara. Eu pagara o preço de uma paixão incorreta, de uma paixão inexistente, mas que fortaleceu-me a alma e o coração, e agora eu conseguira salvar o sub-mundo.
Eu estava pronta.

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