Eu estava em algum lugar estranho, via um lago escuro, era muito frio.
Não me lembrava de nada. A ultima lembrança que tinha era de estar numa festa entre amigos, no meio do shopping, era noite, só.
Como fora parar ali? Por que estava ali? Como sairia dali?
—Quem é você? — ouvi uma voz forte, masculina e um pouco grossa, mas ao mesmo tempo gentil.
Virei-me confusa e encontrei o homem que se dirigia a mim, me perguntei se era seguro respondê-lo. com medo de quem seria ele.
—Onde é.. Ahn, aqui? — perguntei devagar.
Ele riu me olhando como se questionasse minha sanidade.
—Não sabe onde esta? — perguntou ainda naquele riso tão bonito que por segundos me fez esquecer o que perguntaria.
E senti-me mole, muito mole, de repente, desmaiei.
Quando acordei, minha visão estava muito embaçada, mas logo consegui perceber estar numa cama.

Ele apareceu e se abaixou me olhando.
—Você esta bem moça? — perguntou com duas xícaras de chá nas mãos, me esforcei a sentar.
—Acho que sim — respondi com dificuldade para me sentar — Onde estou?
Ele me entregou uma das xícaras, parecia preocupado.
—Esta em Penápolis — disse respondendo — Você desmaiou e eu lhe trouxe para minha casa.
—Penápolis? — arregalei os olhos — Mas como eu vim parar aqui? Moro em Santo André!
—Moça, você esta perdida?
Arregalei os olhos.
—Sim — falei devagar bebendo um gole de seu chá de camomila — E-eu estava em uma festa, eu não me lembro como vim parar aqui, não sei o que aconteceu depois.
E logo em seguida descobri que já havia três dias que eu participara daquela festa. O que acontecera comigo?
—Três dias — arregalei os olhos quase engasgada.
—Três dias o que?
—Faz três dias que a festa aconteceu e eu não me lembro de nada depois disso.
Ele ficou meio sem reação depois dessa.
—Eu posso chamar a polícia — ofereceu.
—Não, se faz três dias meus pais viajaram — peguei meu celular no bolso.
—Acha que viajariam se você sumiu?
Peguei o celular e liguei para minha casa, foi até a caixa postal e eu desliguei, então liguei para minha melhor amiga, ela atendeu e eu coloquei no viva-voz.
—Oi, que saudade amiga! Como esta sendo a viagem?
—Ahn, você pode me dizer quando vim? Que dia era? — pedi.
—Esta maluca amiga? — ela ria — Foi ontem, você decidiu que viajaria, ta, já conversamos, não vou insistir de que acho que ficou com medo de ficar sozinha por que seus pais iriam viajar e você foi pra Penápolis, e então, agora vai me dizer por que resolveu ir pra aí do nada?
Dei um riso sem jeito e falso.
—Não, nem pensar, obrigada amiga, vou ahn, desligar — falei — Beijos, tchau.
E desliguei, olhei para aquele cara estranho.
—Eu não sei por que vim pra cá — entrei em desespero, mas mantive minha voz calma, um tanto quanto alterada, mas calma — E-eu tenho que voltar pra casa e...
—Você não esta bem — me disse — Acabou de desmaiar, você pode ficar aqui se quiser, por uma noite ou duas, ou até ficar melhor e se lembrar.
—Eu não sei o que esta havendo comigo — minha mão tremia um pouco.
Ele me olhou compreensivo e em seus olhos castanhos vi uma certa compreensão.
—Você deve estar com fome — ele se levantou e saiu do quarto, eu não disse nada, não sabia bem o que pensar sobre tudo.
Forcei minha mente tentando me lembrar e só me lembrava de beber muito na festa, e depois ir pra casa, mas só. Suspirei encarando a janela que tinha uma visão clara, era uma fazenda, havia um campo bonito quando me levantei e olhei, cambaleei um pouco e vi que a casa era de madeira, haviam quadros nas paredes, pareciam ser crianças, uma família. Desci as escadas quase caindo nos degraus, mas me segurando nas paredes cheguei na cozinha, aonde ele estava. Ele cozinhava.
Parei na porta, o olhando, era um sujeito bonito, tipo musculoso e alto, e apesar das fotos de família eu não era capaz de acreditar que ele tivesse uma, ele tinha um jeito solitário.
Ele percebeu ser observado e me olhou.

—Desculpe — pedi — Não queria espioná-lo.
—Tudo bem — disse com tom de simpatia — Sente-se, o almoço esta quase pronto.
—Ahn, ah, qual é o seu nome? — perguntei.
—Victor — respondeu e logo me perguntou o meu.
Sorri sem jeito.
—Sou Kate.
Almoçamos silenciosos, de vez em quando eu lhe perguntava algo e ele também me perguntava, o bastante para mim saber que aquelas fotos eram de parentes dele, ele era o dono da fazenda que era uma herança de seus pais já falecidos e ele morava sozinho fazia um ano.
Eu me perguntei como voltaria para casa, não sabia nem como havia chegado ali.
— Victor, eu vou embora logo, me desculpe, eu ahn, não sei o que esta havendo comigo... Mas eu vou embora, não se preocupe — falei um tanto afobada.
—Ei, não estou incomodado com você, na verdade, me sinto bem em ter uma companhia — tinha um sorriso gentil no rosto.
—Mas e-eu não posso ficar aqui sem mais nem menos...
—Fique calma — aconselhou — Dê tempo ao tempo, acho que se lembrará logo.
Agradeci-lhe o apoio e ele foi lá fora na plantação de girassol, fui atrás e olhei, era lindo, lindo de verdade.
—Posso te ajudar? — pedi, era justo, ele me dava uma moradia e eu lhe ajudava.
Ele me olhou pensativo.
—Por que esta fazendo isso?
—Acho justo, você esta me dando uma moradia e me ajudando, quero só, ahn... Tentar retribuir no que quiser — falei sem jeito, mexendo com os dedos nervosamente — Então... Eu... Posso...?
—Ta, vou te ensinar — ele me ensinou a manusear várias coisas e eu fui lhe ajudando. Voltamos para dentro a noite, ele percebeu que iria ter que ir ao mercado — Quer vir comigo?
—Sim, sim, assim o ajudo — ofereci e ele deu um riso sem jeito.
—Não achei que encontraria alguém tão prestativa pra me ajudar! — admitiu.
—E amnésica também — ri vermelha e ele riu também, entramos em sua caminhonete e fomos a um mercado que havia logo perto, poderíamos ir até a pé, mas acredito que ele traria bastante compras.
Entramos e eu levava o carrinho enquanto ele pegava as coisas, como ele era conhecido ali, muitos perguntavam a ele quem eu era e praticamente todos me conheceram. Quando voltamos fui ajudando ele a guardar as coisas, vendo aonde ia cada uma delas.
—Na próxima já posso ir sozinha pra você — falei num meio sorriso.
Seu olhar se tornou diferente.
—Não quero que seja minha empregada...
—Não estou sendo, apenas quero retribuir sua ajuda, poxa, você nunca me viu na vida e confia em mim a ponto de me deixar ficar na sua casa, mesmo que eu pareça maluca — expliquei — Por favor, me deixa te ajudar, vou me sentir melhor se fizer isso.
—Eu ainda não acho legal, nem justo — insistiu.
—Mas é claro que é justo, seria injusto você me manter e eu não fazer absolutamente nada por você — encarei-o, ele suspirou longamente e não disse mais nada.
Parecia exausto.
—Se me permitir, faço o jantar, você me parece exausto — ofereci — Se quiser, se sentar ou deitar, eu vou fazendo e chamo-o quando terminar... Bom, se você quiser, se não tudo bem, entendo.
Ele me deu um sorriso suave.
—Por favor, faça, estou realmente cansado, irei tirar um cochilo, pode ficar à vontade — se afastou devagar.
—Obrigada.
Ele deu mais um riso e subiu as escadas.
Eu gostava de fazer massas, era minha especialidade, principalmente lasanha e foi esta que fiz, claro que demorou um pouco e eu aproveitei para fazer um suco, arrumei a mesa, gostava da toalha xadrez que a cobria. E olhei a janela, era tão boa a sensação daquele lugar, eu gostaria de morar ali, tinha um bom sossego, algo que eu buscava muito e aliás, eu já tinha idade para sair de casa, poderia me mudar, para perto dali, era um lugar lindo.
Tirei a lasanha do forno e a coloquei na mesa, os copos e ajeitei, depois subi tentando não fazer barulho e andei pelo corredor, havia uns quatro quartos, o que eu estava eu sabia qual era, restavam três, fui no de porta semi-aberta.
E o vi.

Ele estava todo desajeitado, mas não pude deixar de notar o quão bonito era, claro com aquele cabelo moreno e liso, aquele rosto perfeito e ele tinha um sorriso bonito, ele era um cara bonito pra caramba, ainda mais por que tinha o corpo em forma e tudo mais, devia chamar atenção de garotas aonde ia.
—Victor — chamei baixo — Victor...
Ele se mexeu um pouco e me olhou, ficou corado quando me viu, ajeitou seu cabelo.
—O jantar esta pronto — falei colocando meu cabelo pra trás da orelha, minha mania para quando estava nervosa.
—Ah, ta bom, eu já vou — sentou e eu pedi licença saindo do quarto e descendo.
Parei novamente olhando a janela, fitando os girassóis, lindos..

—Você gosta dos girassóis? — perguntou me fazendo pular.
O olhei devagar.
—S-sim — arregalei os olhos.
—Desculpa pelo susto — disse sorrindo — A comida esta com um cheiro maravilhoso, vem.
Fomos até a mesa e eu coloquei pra ele, ele me fez colocar mais, se alimentava bem. Coloquei pra mim e comemos juntos, ele elogiou minha comida variadas vezes, dizia que estava feliz por ter uma companheira para cozinhar e ajudá-lo, acho que eu era sua melhor amiga.
E um dia se passou.. Quando tive que ir ao mercado comprar leite quase todos já se lembravam de mim, sorriram ao me ver e perguntaram dele, respondi que trabalhava e que eu só estava para comprar o que faltava, perguntaram se eu e ele estávamos juntos, disse-lhes que não, éramos amigos e que eu estava só para visita.
Na volta o encontrei andando na calçada, estava distraído, não chegou a ver o carro se aproximar dele. Estava com as mãos nos bolsos, camisa preta.
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Ele sorria largamente, pensativo. O olhei confusa.
—Victor — chamei — Tudo bem? Aonde esta indo?
—Ah, eu ia sair, mas acho que vou voltar — sorriu pra mim e eu pulei pro lado indo pro banco do passageiro.
—Entra — falei e ele entrou me olhando.
Ajustei o cambio pra ele e ele pegou na minha mão sem querer, e então fitou meus olhos.

—A-hã — pigarreou — Vamos.
Fiquei vermelha. Ele acelerou o carro e fomos pra fazenda, lá eu fui guardando as coisas e ele foi trabalhar na plantação.
E eu fui num canto sozinha atrás da casa, sentei-me no chão e fiquei pensando... Não me lembro bem o que houve comigo, desacordei por uns minutos, longos minutos, e lembrei um pouco, eu bebera, bebera aquela noite e acordara com pensando neste lugar. Mas como eu podia conhecê-lo sem nunca tê-lo visto antes?
Lembrei de ter dito aos meus pais que ficaria em torno de uma semana fora, eles concordaram desconfiados, mas menti dizendo que minha amiga iria comigo e simplesmente vim, bati o carro na viagem...
Acordei.
Respirei aceleradamente, confusa, preocupada. O que eu estava fazendo ali?
Fitei o lago que tinha ali, era grande e a água era clara, eu gostava dali, era calmo, mas meus pensamentos rodavam na mente, estava preocupada. O sol refletia na água, e o fluxo dela era tão lento que me fazia querer mergulhar em suas águas frias.

Levantei devagar, ainda fitando ali, jamais esqueceria daquela vista perfeita, voltei e entrei devagar, ele pegou meus braços com as mãos e olhou meus olhos, o olhei confusa.
—Aonde você foi? — perguntou preocupado.
—Ahn, no lago aqui atrás... Por quê?
—Por que esta anoitecendo e aqui é perigoso à noite! Você quase me matou de susto — disse, percebi que estava realmente muito preocupado comigo, eu devia lhe dizer algo ou apenas me desculpar, e foi o que eu decidi fazer.
—Desculpe — pedi.
Ele soltou meus braços agora só olhando meus olhos.
—Esta tarde, vá dormir — ele praticamente mandou.
—Ta...
Fui subindo na frente e ele veio comigo, deitei e ele parou na porta me olhando.
—O que foi? — perguntei.
—Não saia daqui a noite, é perigoso.
Assenti ajeitando meu travesseiro.
—Não se preocupe comigo — pedi e ele foi se virar — Victor, eu ahn.. Me lembrei de algumas coisas.
Ele me olhou curioso e se sentou na ponta da cama.
—Do que se lembrou?
—Eu voltei pra casa aquele dia e decidi vir para cá, não sei por quê, eu não me lembro, mas pedi sete dias — falei pensativa — E-eu me lembro que bati o carro e não lembro mais, mas acho que foi assim que cheguei naquele lago... E depois, só me lembro de te ver e vir pra cá.
Victor me olhou devagar.
—Se você lembrar, você vai embora?
—Ainda tenho cinco dias pra ficar aqui — fui doce.
Sorriu.
—Acho que não quero perder minha ajudante — admitiu.
—Ei, se eu for embora e talvez recupere minha mente eu volto pra te ver! — dei-lhe um abraço — Prometo.
Ele me abraçou sem jeito, me apertando.
—Acho que você é o amigo mais legal que já conheci — sorri o olhando — Obrigada por tudo Victor.
—Eu que devo agradecer — disse meigo — Desculpa por agir daquele jeito com você lá embaixo, fiquei preocupado.
Sorri mais que antes.
—Tudo bem, eu não devia sair sem te avisar — continuei, na verdade, gostava daquela atenção dele.
—Não estou com sono, quer jogar um jogo?
Me empolguei no mesmo instante.
—Quero, que jogo?
Logo começamos a jogar e passamos boa parte da noite jogando, até que pegamos no sono, os dois. No meu sonho estava em um lugar mais escuro que me deixava só enxergar a lua.
Era um sonho bonito, assustadoramente belo.

E acordei vendo que ele estava praticamente em meus braços. Ele espreguiçou devagar sem nem perceber que estava comigo, depois sorriu ainda de olhos fechados e me olhou, arregalou os olhos avermelhando.
—Calma — pedi-lhe — Esta tudo bem.
—Desculpe! Eu acho que perdi a noção de...
—Não se preocupe — pedi, ele me olhou ainda corado e se sentou ajeitando seu cabelo — Eu vou fazer o café da manhã...
—Não, eu vou! Você não pode fazer tudo! — disse rapidamente se levantando.
O olhei devagar.
—Ta então, vou ahn, tomar um banho — falei devagar.
—Tem toalhas lá no armário, você sabe.
Desceu as escadas as pressas, peguei a toalha, minhas roupas e entrei no banheiro, tomando o banho e rindo baixo por sua reação ao perceber que dormiu na mesma cama que eu. Me arrumei com uma blusa nova que havia comprado com meu cartão que achara em minha carteira, eu tinha uns trocados, mas preferia o cartão, então comprei algumas roupas.
Fui até ele de blusa rosa e calça jeans preta.
—O café da manhã esta pronto — falou me olhando.
—Ah, ta — sentei diante da mesa e ele colocou pães, leite quente, café e algumas coisas a mais — Ei, você é bom nisto.
Ele sorriu torto, constrangido, envergonhado. Estranho, ele jamais agira assim comigo, sempre legal e simpático, nunca tímido. Comemos e depois fomos trabalhar, arrumamos a plantação e eu fui regar o jardim, era mais um dia comum, até que meu celular tocou.
—Kate — era a voz da minha mãe — Você tem que vir pra casa, seu pai sofreu um acidente.
—Acidente? — perguntei preocupada.
Ela chorava e isto me deixava mais preocupada ainda.
—Mãe, calma, eu vou pra casa — entrei na casa subindo pro quarto e pegando minhas coisas, coloquei na bolsa grande que eu havia comprado — Fica calma, eu já vou ta?
—Ta — ela soluçou — Tchau filha.
—Tchau mãe, fica calma — e desliguei.
Desci correndo com a bolsa e fui até Victor, ele percebeu que eu corria e que estava preocupada.
—O que houve? — perguntou confuso.
—Meu pai sofreu um acidente — falei — E-eu tenho que ir.
Ele me olhou triste
—Vai embora? — perguntou.
—E-eu volto Victor, juro que volto, eu prometo, mas eu preciso ir — falei olhando seus olhos — Desculpa.
—Não me deve desculpas.
Ele me levou até o carro e fomos até o aeroporto, quando chegamos lá eu já estava esperando meu voo e o olhei devagar.
—Eu prometo que volto — falei fitando seus olhos.
—Ahn, tudo bem, vá com calma, não se preocupe comigo — pediu me olhando nos olhos tão fundo que achei que me perderia ali.
E ele tocou meu cabelo com leveza, sem jeito.

—Vou esperar você — disse baixo.
Eu sentia meu coração batendo forte.
—Eu venho, mas, por favor, não se esqueça de mim — pedi num meio sorriso e dei um passo leve pra trás, ele ainda me olhava daquele jeito que me fazia ter certeza de por que ele agia daquele jeito e de por que eu também agia assim.
Estava apaixonada por ele.
—Jamais esqueceria — havia um sorriso plantado entre suas bochechas agora rosas ali e eu entendia-o mais que tudo agora.
—Ahn... Tchau — me virei devagar e fui embora.
No avião não conseguia parar de pensar nele, era inevitável como um pedaço do meu coração parecia ter ficado com ele lá.

E doía tanto!
Quando pousou eu fui pra casa, meu carro estava na garagem. Como eu havia saído de casa sem levar meu carro?
Entrei e minha mãe me abraçou forte.
—Filha! — ela me apertou.
E logo fomos ao hospital ver meu pai, ele havia se machucado muito, mas estava melhorando e os procedimentos médicos estavam ajudando muito. Ele estava melhorando a cada dia e foi pra casa, e um dia minha mãe me lembrou de que eu fora atrás de um cara.
—De quem? — perguntei.
—Não sei, você disse que ele era importante — disse ela confusa — Encontrou-o?
—S-sim.
Estava incrédula. Eu já sabia de Victor?
—Quem é ele?
—Ahn, é muito legal — falei e suspirei logo em seguida — Estou apaixonada por ele.
Ela riu.
—Querida, isto é lindo!
—Mãe, ele mora longe — continuei — E não poderia vir pra cá, ele tem uma fazenda, é lindo lá. Não seria possível ele vir pra cá, eu teria que... Morar lá.
Seu tom se tornou sério.

—Filha, você mal sabe o que esta dizendo, não concordo com você ir atrás dele — disse.
—Mas eu gosto dele...
—Gosta dele, não é sério querida, vai ver que é só um amor juvenil.
A olhei devagar.
—Não é.
Ela suspirou longamente e brava, irritada com minha idéia.
Subi as escadas correndo e entrei no meu quarto, desesperada, sentei no chão chorando... Eu tinha que vê-lo novamente!

Tranquei a porta ainda chorando, joguei meus sapatos na parede e peguei meu diário.
Comecei a lê-lo e lá achei o que queria de verdade.
É a ele que devo procurar, eu não sei por quê, mas algo dentro de mim me puxa para um lugar longe daqui, eu tenho que ir, fugir. E ir para seus braços... Mas sei que para isso terei que esquecer, esquecerei de por quê saí, mas tenho que sumir, por alguns dias, ser dele, eu pertenço a ele, estou deslocada aqui, meu coração é dele e o clama todos os dias aos sussurros.
Por isso estou escrevendo aqui agora, para me lembrar, tenho que ver isto... Saí a noite de sábado, disse aos meus pais que tinha que encontrar um amigo, para meus amigos não disse o motivo, e simplesmente fui, só me lembre... Jamais olhe o futuro novamente.
Enruguei a testa ainda confusa e coloquei o diário na cama, pensando nas probabilidades de ter mesmo visto o futuro, era impossível! Mas então como eu esquecera de tudo que meu diário mencionava? Eu estava louca!

Limpei minhas lágrimas, confusa, mas ainda chorava de saudade dele.
No dia seguinte, lá estava eu, indo falar com a minha mãe.
—Mãe, eu vou ir vê-lo — falei.
—Não, não vai — insistiu — Eu não o conheço, não sabemos suas intensões e nem nada.
—Mãe, eu cheguei desamparada lá e ele me recebeu, ele me ajudou! Ele é bom! Um dia quero que você o conheça, perceberá que ele é um cara maravilhoso, mas mãe, preciso vê-lo — pedi de novo.
—Não! — ela berrou agora.
Meus olhos encharcaram de lágrimas agora.
—Eu tenho dezenove anos mãe! Eu tenho o direito de ir aonde eu quero!
—Não enquanto vive embaixo do meu teto! — rebateu e meu pai entrou na cozinha.
—Parem as duas — mandou de pé com muletas e eu saí correndo, subi e entrei no quarto, deitei na cama chorando de novo, sofria por dentro, queria ele... Precisava dele.
Peguei meu celular e vi a quantia de créditos, dava para mandar algumas mensagens, mas eu não esperava que ele as recebessem logo, ele trabalhava demais para ver seu celular.
Mas mesmo assim enviei.
Victor, sou eu, estou mandando esta mensagem para dizer que eu estou com alguns problemas para voltar e eu acho que talvez demore um pouco para ir vê-lo novamente, desculpe. Um beijo, Kate.
E fitei a janela mais uma vez, quieta e pensativa, esperando sua resposta.

Meu celular vibrou como sempre, o que me assustou um pouco. Meu coração teve um êxtase e acelerou com força, me perguntando se seria ele abri, sorrindo com a surpresa que me aguardara.
Eu imaginei, seu pai sofreu um acidente, tudo bem, eu entendo que tenha problemas, aliás, eu moro longe e eles não vão achar muito legal você ficar vindo pra cá, mas não se preocupe. Eu te espero.
Sorri com lágrimas nos olhos e dei-lhe uma resposta simples.
Estou com saudades, tchau.
E fechei o celular sabendo que meus créditos acabaram. Deitei na cama um pouco mais alegre do que antes, e cochilei livremente. Sonhando com ele pela primeira vez, com aquele olhar dele no meu no aeroporto e aquele seu sorriso quando o encontrara andando na calçada, ele pegara em minha mão e olhou meus olhos tão sem jeito que parecia que iria explodir. Ele sentia algo por mim, eu sabia. E como eu mesma dizia em meu diário, meu coração clamava a ele.
Acordei e já era noite, queria vê-lo, fazer o jantar e sorrir esperando-o para vir comer.
Quando me perdera tanto de amor por ele?!
—Kate, vem jantar — chamou minha mãe.
—Não estou com fome — gritei.
Meu pai veio no quarto.
—Vem filha — pegou minha mão e descemos.
Minha mãe me olhou devagar e não sorriu.
—Nós vamos deixar você ir ver este tal garoto.
—Victor — corrigi.
—Isso, Victor — disse ela — Mas queremos você em casa, quero que me prometa ter juízo.
Suspirei.
—Mãe, eu e ele não estamos juntos — falei. Ela me olhou confusa — Eu só gosto dele, ele nem sabe desse meu sentimento, não há nada entre nós.
Ela pareceu entender, se acalmou mais.
—Ah, pensei que vocês já estavam juntos — ela disse me olhando.
Ri.
—Não, acho que ele não me vê assim — respondi meiga, mentira, achava que ele me amava também — Então não se preocupe, não há nada entre nós, só quero agradecê-lo por me ajudar tanto.
—Ahn, então me sinto mais segura em mandá-la — parecia aliviada.
Assenti e terminei de almoçar, logo pelo fim da tarde subi e arrumei minha mala, meus pais me levaram até o aeroporto e eu peguei o avião. Estava ansiosa para vê-lo, com saudades dele.
Era noite quando cheguei na cidade, demorei para chegar até a casa dele que era bem longe do aeroporto, entrei cheguei de manhã e me surpreendi com o que vi. Tinha uma garota lá com ele, não estavam juntos de vista, mas ela tinha um olhar pra ele, parei no potão e olhei.

Queria voltar pra casa naquele instante, fingir que nem tinha perdido viagem e diria aos meus pais que ele não estava em casa, que foi um completo desencontro, mas seriam desculpas demais e outra, meus olhos demorariam a parar de escorrer as lágrimas que já queriam se formar, me escondi atrás da casa e vi-a sair. Então fui atrás dele, sentia falta dele e como tal não resisti a abraçá-lo.
—Oi Victor — falei e ele se virou agora me abraçando também.

—Kate! — exclamou gentil como sempre.
O olhei doce.
—Você veio — ele me olhou nos olhos e nos soltamos.
—Sim, eu vim — não achei bom perguntar quem era a garota no qual ele conversara antes da minha vinda.
Entramos e ele me acomodou naquele quarto que eu estava antes, coloquei minhas coisas lá.
—Quanto tempo você vai ficar comigo? — perguntou meigo.
—Ah, eu não sei — respondi devagar, confusa.
—Por favor, fique mais tempo — pediu gentil.
Sorri sem jeito e ele tocou meu cabelo olhando-me nos olhos de novo, me tirando o ar.
—Tentarei.
Ele sorriu mais e alguém bateu na porta. Ele desceu correndo, apressado e devagar eu fui atrás.
Era aquela garota de novo, ela o abraçou forte e eu me escondi para que ela não me visse, chovia e ela estava um pouco molhada, segurei a respiração e olhei de lado.
—Oi — ela tinha uma voz desagradável.
—Oi — disse ele — Você esqueceu alguma coisa?
—Sim, eu ahn... Esqueci a minha blusa de frio — ela entrou e foi até a mesa.
Espera aí! Ela tinha tirado a blusa de frio pra quê?
Arregalei os olhos esperando e dei um passo pro lado sem querer, fingi que estava descendo mesmo as escadas para saber quem era.
—Ah oi — falei a ela devagar e ela me olhou confusa.
—Oi — ela disse sem saber o que falar e o olhou — Até mais, tchau.
Ele não respondeu e eu o olhei confusa.
—Ahn, você estava com ela? Quero dizer, estavam juntos? — não pude conter a pergunta.
—Não, ela ah, veio me informar umas coisas da cidade.
—Eu não vou cair nessa — dei um riso sem graça.
Ele me olhou devagar.
—É sério, ela veio me trazer notícias — disse — Ela só esqueceu a blusa.
—Se veio trazer uma notícia por que tirou a blusa?
Olhei-o em mais um riso totalmente sem graça.
—Ahn, eu acho que estou incomodando — falei antes que ele dissesse algo e subi, peguei minhas coisas enquanto ele tentava me interromper, desci as escadas.
—Não esta! Para com isso, Kate! — pediu ele segurando minha mala e eu passei, mas ele derrubou-a no chão e quando eu voltei para pegá-la ele me puxou pela cintura.
Olhei seus olhos um instante, ele estava encharcado como eu e me puxou pra perto ainda olhando meus olhos, seus olhos desviaram para meus lábios e ele deu-me um sorriso perfeito.

Devagar ele me beijou, um beijo doce e que ao mesmo tempo que era suave, me tirava o ar completamente. Devagar ele pegou minha mala no chão com uma das mãos e fomos andando ainda entre beijos até sua porta, ele bateu as costas e abriu agora nos encostando na parede.
Ele soltou minha bolsa e me pegou nos braços, depois escorregamos e caímos, nos beijando no chão, ele apertava minha cintura envolvendo-me naqueles seus braços fortes, então me soltou um pouco agora acariciando meu cabelo com ternura.
—Eu esperei muito por isso — sussurrou beijando meu rosto, sentindo meu cheiro — Que vontade, que saudade de ter você aqui, e-eu gosto de você desde aqueles dias... E eu não consigo mais viver sem você aqui. Então, por favor, fica comigo.
—Acho que estou ficando louca — admiti — Em querer isso, é loucura... Moramos longe e você tem sua vida, mas é tão difícil quando estou longe de você.
Ele respirava na minha respiração e eu o beijei novamente.

Passei meus dedos por seu cabelo molhado, ele passou os braços envolta de mim de novo e nos beijamos mais, correspondíamos um ao outro, o que eu achei que talvez não fosse acontecer nunca.
Ele me soltou ainda com os lábios nos meus.
—Você não é louca — disse.
Eu ri.
—Imagina, só apareci na sua vida do nada, sem me lembrar do nada e me apaixonei do nada — falei em sussurros.
—Mas se não fosse assim talvez eu não descobrisse o que é o amor.
Eu nunca descobri o que me fez ir até ele, nem o por quê, só sei que algo me fez encontrar tudo que eu procurava e não sabia. Ele.
ai minha nossa,chorei com sua historia
ResponderExcluireu escrevo tambem,mais nunca vi nada igual a isso!
ahsuahsuhaushuashusa ai q boba, obrigada flor *-*
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