A rotina tomara conta da minha mente, 6:22, eu acordava exatamente nesse horário. Logo pela manhã eu preparava um chá, pois eu odiava café, e logo ia conferir a correspondência.
7:40, academia. Eu acho que gastava mais força para me convencer a ir do que quando estava fazendo algum tipo de exercício.
Eu tinha horário para tudo.
O almoço era diferente, mas algo que eu já estava mais acostumada a me adaptar, selecionado com apenas o de meu melhor gosto e o que era saudável, eu nunca entendera porque ambas as coisas eram tão opostas, o que eu gostava e o que fazia bem. Trágico.
Eu tinha que passar na casa do Chace, ele havia me ligado alguns dias antes, precisava me ver, não disse o motivo da visita que esperava ou o assunto pelo qual falaríamos, mas algo dizia que ele iria despedaçar novamente. Ele nunca reagiu bem a divórcio.
Meu celular estava tocando incansavelmente logo pelo começo da tarde, eu mal olhava a tela pra saber que era do trabalho, e acho que praguejei mais aquele dia porque precisavam de mim e eu teria de desmarcar meu compromisso. Liguei para Chace, um toque, dois, três e eu estava na caixa postal, minha paciência martelou a mente num aviso de que iria sumir logo. E ele não atendia...
Eu odiava a normalidade com que eu fazia as coisas, mas tudo parecia tão controlado através do meu relógio que posso jurar que era ele quem estava controlando e fazendo escolhas por mim, toda vez em que eu iria fazer algo, eu o consultava. Isso não acontecia há 575 anos, mas também não era tão fácil e confortável. Garanto que não sinto saudade dos espartilhos, nem mesmo do trabalho de camponesa, e só de pensar eu já sentia a terra em minhas mãos. Ao pensar nisso, chequei-as para ver se não estavam sujas.

Eu sei, eu levei anos calculando alguns passos meus, quem ficar por perto, quem me afastar, eu sabia o que cada pessoa era apenas de olhar, era uma boa analista, admito. Isso ajudava no meu trabalho, New Castle parecia agradável nesse horário, mas eu já podia ver todo o sinal da poluição da janela da minha casa, não que o Brasil fosse diferente... Mas, bom, fazia tanto tempo que eu não visitava meu país de origem, já que as lembranças conseguiam me corroer profundamente por dentro como um ácido. Os lugares em que estive, as pessoas que conheci, as que amei... Eu nunca as devia ter amado.
Quem eu sou nunca foi uma pergunta muito estressante, bom, por algum tempo há muito tempo eu ficava com isso na cabeça, sabe, sobre nunca ter um fim, nunca encontrar alguém parecido comigo, porque pelo que eu entendia esse negocio de envelhecer não era muito a minha praia. Claro, acho que toda mulher gostaria de parar com vinte e cinco anos e ficar com o corpo belo sem ter que mudar, ganhar rugas, marcas de expressão ou coisas do gênero, mas acho que apesar disso parecer bom, depois de um tempo se torna um fardo que mata a cada segundo. Como se eu vivesse cada segundo.
Uma vez encontrei alguém como eu, era um cara mais velho, bem mais velho que eu, mas sua aparência era simplesmente impecável e completamente apaixonante. Sou schopenhaueriana, nada pessoal, mas ele logo desistiria de mim, das minhas teorias e eu sofreria... E sofrer para sempre é tempo demais.
Chace atendeu.
— Aconteceu alguma coisa, Débora? — Sua voz parecia preocupada. Não sei porque decidi usar esse nome, deveria ser o sotaque de lá ficava bonito quando o pronunciava ou era porque, definitivamente, eu já não me importava mais, nem com meu nome, nem com minha aparência.
— Ah, sim, um imprevisto. Eu tenho algo no trabalho, mas vou até aí o mais rápido possível . — Havia tempo que eu me acostumara com o idioma dali, falava de forma tão fluente que poucos reconheciam que eu não era naturalmente do local.
— Hum, tudo bem...
Não, eu não era sua psicóloga, estava bem longe disso.
Logo me despedi e fui até o departamento de polícia, não vou perder meu tempo com referencias ou nomes, o que era importante era meu chefe e alguns integrantes que me ajudavam em alguns casos. Nem me lembro porque escolhi esse emprego dessa vez, mas parecia tão apropriado, eu tinha facilidade em solucionar casos de assassinato, é que... Depois que se vê tanta gente morrer, ironizo-me a dizer que a morte perde a graça e ganha a cobiça.
Era um caso novo, nada específico um homem, no máximo trinta anos, não me permiti compreender porque a descrição dele estava tão bem feita. Olhos escuros, cabelos negros e lábios finos demais, a pele era branca, e uma imagem se formava em minha mente, ergui a sobrancelha me perguntando se estavam falando de algum ator de novela ou filme. Chequei envolta, só um dos caras mais jovens estava do meu lado, apertei os lábios com certa frustração.
— É isso? Está brincando comigo? — Indaguei, a voz fina alterando o tom.
— O que tem de errado nisso? — Ele era de outra cidade, céus, seu sotaque me deixava realmente irritada, não sei porquê.
Como alguém tão inocente e jovem poderia trabalhar naquele departamento?
— Cabelo negro, olhos escuros e lábios finos... Ah, que lindo, quem é o responsável por esse relatório? Está buscando um ator ou um assassino? Quem fez isso? O cara não tem cicatrizes? Uma tatuagem? — Murmurei irritada, me deixava ficar assim facilmente, na verdade, adorava testar a paciência alheia. Vaguei os olhos por todo o cômodo e vi que ninguém se manifestara. Cruzei então os braços e voltei os olhos ao rapaz ao meu lado, ele parecia tremulo diante de uma superior, ele nem era tão novato.
Apertei, portanto, os lábios e continuei a fitá-lo, soltei um suspiro.
— Eu não sei, deixaram na minha mesa logo hoje cedo com um recado para te entregar o caso, não cheguei a verificar os papéis.
— Quem deixou?
— Eu não sei. — Findou.
Voltei os olhos para o papel, frustrada, mas logo sentia a conformação tomando conta de mim aos poucos, procurei outras marcas e outros detalhes na ficha, empurrei minha cadeira e sentei, mais uma olhada no relógio e no rapaz que parecia esperar minha permissão para se retirar.
Ergui os olhos.
— Obrigada, ah...
— Jonathan.
Eu sabia seu nome, só não queria me esforçar a lembrar.
— Isso, obrigada, pode ir agora.
Coloquei tudo numa pasta assim que ele saiu e peguei todos os arquivos, deixei tudo separado. Queria pedir para levá-los e analisar tudo em casa, mas seria uma grande briga com meu chefe novamente, eram documentos importantes caso eu os perdesse.
Dei uma lida rápida, não era um documento extenso. Por fim, coloquei meu casaco novamente e saí, não esperei me darem um novo caso pra mim, menti que precisava fazer uma pesquisa e olhei o relógio novamente, tão presa a ele.
Acelerei no carro com calma, odiando o transito, mas não me importando, estacionei o carro naquela garagem familiar do Chace e apertei a campainha.
— Debby. — Um sorriso familiar expandiu-se pelos lábios carnudos e brancos, as bochechas agora estavam pálidas, os olhos estavam azuis em um tom claro, eu podia jurar que quase atingia o tom de sua pele e eu... Tão sobrenatural, me perguntava ainda bobamente como aqueles olhos pareciam mudar de cor.
Minhas mãos ficaram aos bolsos do casaco, o frio do inverno era mesmo infernal.
— Oi, Chace — Acho que ele era a única pessoa com quem eu podia falar em português as vezes, ele se esforçou a aprender, mas devido a sua dificuldade em compreensão, me acostumei a falar com ele como com as outras pessoas. — Está bem? — Que pergunta! Genial, a cara dele nem indica nada, como sou esperta...
Quase revirei os olhos numa discussão interna.
— Ah, eu... Estou sim, entra — Dera espaço e me senti bem mais confortável naquela casa, não era só pelo calorzinho, mas sentia falta dali. Ele estava indo até a cozinha e eu apenas o acompanhei ouvindo o som de minhas botas no piso de madeira com aquele barulho agradável, o bom gosto fora dele. — E você, como está?
Ele colocava chá naquela xícara vermelha com detalhes em dourado, eu sempre lhe disse que aquilo era natalino, mas o teimoso dizia ser apenas enfeites normais. Acabávamos rindo da imaginação fértil de ambos, já que... Tinha um coelhinho e estava escrito 'Feliz Páscoa'.
— Bem... Alguma novidade?
— Sim, tomei uma decisão.
Juro que minha curiosidade quase me fez aproximar mais, mas achei realmente impróprio depois de tudo. Ele se aproximou de mim, colocou a xícara no balcão e encostou me olhando.
— Eu disse que havia desistido, eu entendo que você queira o seu espaço e que nossa separação foi porque sou muito...
— Não foi culpa sua, Chace. Sabe que o fiz porque eu precisava desse tempo, a culpa não é sua.
E não era.
Quando nos casamos eu era completamente apaixonada, mesmo sabendo que ele era humano, percebi isso desde a primeira vez que nos aproximamos, a questão é que eu não poderia ter uma estadia tão longa em sua vida, ele perceberia algo errado, acho que todos perceberiam, eu tinha de ser móvel, ficar alguns anos em um lugar e depois criar uma nova história, novo nome, nova cidade, novos documentos.
Admito, ele era diferente, não haviam motivos para que eu me separasse dele, não motivos relevantes para uma pessoa comum, mas é que... Eu não suportaria vê-lo morrendo todos os dias um pouco enquanto eu permaneceria jovem e forte, era uma injustiça particular, mas eu não tinha como lutar contra, apenas tentar fazer com que ele não sofresse. Não estava funcionando.
— Claro que sim, Debby... — Ele aproximou e dessa vez foi diferente, não como as outras em que gritamos um com o outro, discutimos e acabamos culpados, não havia nenhum olhar de reprovação em seus olhos e, consequentemente, nada que o impedisse nos meus. Seu corpo pressionou-se suavemente ao meu, eu quase havia me esquecido do quão quente e confortável era a sensação de estar em seus braços. Pude senti-lo abaixar o rosto e fitar meus olhos, era o fim. — Eu ainda sou louco por você.

Não era um caso simples. Pisquei algumas vezes, sentia-me adolescente como há mais de 500 anos não sentia e eu não consegui falar nada, só beijá-lo uma, duas... Três vezes seguidas, então senti aquela sensação que parecia sucumbir as forças do meu coração, apertando-o.
Eu era dele.
Foi à noite que voltei ao departamento e comecei a estudar aquelas fichas, li tudo sobre o homem misterioso e o departamento foi esvaziando. Os locais em que o homem fora visto eram públicos, sim, exceto um e este me chamou atenção, pois eu sempre o visitava.
Entrei no carro e me dirigi ao local, era bem aberto e próximo a uma ponte, pensei em me jogar algumas vezes, mas... Tentativas de morte nunca funcionavam, nada, parecia que até as armas tinham uma conspiração contra mim.
Olhei lá para baixo e apertei os lábios um instante, se Chace me visse ali daria um surto, ele não gostava que eu andasse sozinha à noite, não gostava que eu ficasse em lugares desse tipo, mesmo sabendo que fazia parte do meu trabalho.
— Acho que sei o motivo de sua vinda...
Virei-me tão rapidamente que quase perdi o tom de voz ou o fôlego do peito.
Olhos escuros, negros para ser sincera, cabelo no mesmo tom, os lábios finos, a expressão passiva e fria, a pele tão branca quanto a neve que eu podia jurar ter a mesma temperatura dele quando ele se aproximou, mas eu não dei passos para trás para fugir do possível agressor. Senti-me bem-vinda, isso mesma, bem-vinda com um estranho, e confortável. Seus olhos eram astutos, astutos e analistas, seu rosto virou um pouco para o lado e ele usava um tipo de capa negra, algo que eu defini ser exageradamente misterioso para aquele homem.
— Não sou um criminoso — Sussurrou. — Eu levo almas, não me preocupo com o corpo... Teve 500 anos para achar uma solução para o que é, e nunca descobriu os motivos de sua imortalidade, olhe para o relógio, seu tempo acabou.
Não foi como se eu quisesse olhar o relógio, ele estava em minhas mãos e parece que meus próprios dedos o ergueram e eu vi, não havia números marcados, os ponteiros estavam juntos e eu sabia que era o fim do tempo. Escureceu. Não o céu. Eu.
E foi assim que eu sumi.
Não há muito que eu gostaria de deixar de recado, apenas ao Chace, mas ele já sabe o que deveria saber, sobre a mulher pela qual casou. E acho que outras pessoas também irão saber, a morte me abraçou como um anjo de escuridão, não sei definir as sensações de uma pecadora e amante de uma vida longa.
Sei apenas que não posso mais ficar no corpo de um vivo para escrever isso, é melhor Jonathan acordar... Ironicamente... Não tenho tempo.

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