sábado, 16 de fevereiro de 2013

Vingança de alma

Pela falta de renda eu e minha mãe nos mudaríamos para o subúrbio de Nova York, onde uma antiga senhora morava, mas teria falecido recentemente, conhecida pela família, mas isolada. O preço fora favorável a nossa renda. Estava meio vazio aquela manhã.

Era um pequeno espaço, mas confortável o suficiente para nós duas. Logo dentro havia um corredor longo até meu quarto, escuro o suficiente para que eu quase não notasse a porta do sótão, se não fosse pela portinha indiscreta.
Minha mãe me chamara, precisava de ajuda com nossas coisas, corri até o quarto dela, próximo ao meu, era pequeno, mas dava para algum tempo, provisório. Dirigi-me ao meu quarto mais a noite, logo me concentrando em uma noite de sono, ouvi os roncos de minha mãe, tão cansada, logo estaria em sua busca de emprego novamente e procurar uma escola pra mim.
Fitei o teto por um longo momento, não consegui dormir, ainda mais porque ouvia um barulho próximo, coloquei-me de pé a olhei pelo corredor, parei na porta observando atentamente, acho que o barulho vinha do sótão... Acho não, ele vinha.
Não sei porque, mas... Meus pés estavam me levando até ele e foi mais que automático quando subi lá. Estava escuro e a lua parecia resplandecer naquela noite, de uma forma sobrenatural.

Apertei os lábios severamente, confusa com o barulho e posso dizer que aquela lua prendera minha atenção por algum tempo indefinido, eu mal conseguia me concentrar em meus pensamentos até ouvir um barulho atrás de mim, este reconheci, havia o ouvido no meu quarto. Por fim, me virei e vi uma estante de livros, uma estante grande, me vi interessada quase que anormalmente, costumava gostar de livros, mas não era do meu ser ir ver algum em um sótão, basicamente abandonado ao meio da noite.
Mas, novamente, lá estavam minhas pernas se movendo rapidamente em direção aquela estante. Eu tropecei.
Dei de cara no chão, mas não tive nenhum machucado grave, descobri que era em um livro que eu tinha tropeçado, ele era grande e marrom e quando me sentei ao chão, pude perceber que as letras de sua capa eram todas de um tom prata brilhante, chamativo o suficiente como as molduras em seu entorno. Não pude deixar de enrugar a testa com os símbolos da capa do livro e observei que, de giz, os mesmos estavam reproduzidos ao chão. A minha volta.
Havia uma estrela, esta eu sabia que já tinha visto alguma vez, deve ter sido em um filme... Talvez. E eu estava exatamente no centro, ainda assim, decidi abrir o livro. Sentei-me próxima a janela e observei as gravuras ali.

Logo na primeira página, havia letras grandes e bem intrigantes, escrito então "Invocações.", sim, isso parece uma grande burrice, mas lá estava eu lendo a primeira página... A segunda e meus olhos estavam se perdendo entre elas, acho que não era sono, parecia delírio. E o calor emitido vinha de minha direita, noite fria demais para algum calor. Havia uma fumaça cinza ali... Envolvente, tomando meu corpo como um alimento.
Estava no meu quarto, amanheci depois de o que parecera ser um sonho, exceto pela presença de um grande livro na cabeceira de minha cama, eu o reconheci de imediato e dei um pulo sobre a cama, parte de mim afastara-se com a certeza de que era um livro de magia negra, se é que isso existia, a outra parte tinha um desejo quase incontrolável de lê-lo mais uma vez.
No fim da tarde, lá estava eu no corredor, olhando em direção a porta do sótão. Subi novamente, precisava descobrir o que de tão curioso havia ali. A janela me chamava atenção mais uma vez.

Desta vez, o reflexo nela me chamara a atenção, parecia de alguém e me virei checando se não havia ninguém atrás de mim. Enruguei o cenho, fitando ali mais fixamente, havia uma mulher, bem velha e com marcas fortes de expressão, e eu não entendia porque a via ali, pisquei algumas vezes e dei um passo pra trás, o reflexo afastara. Era uma mulher, em mim.
Sua expressão mudou, um sorriso, sádico.
Não pude conter o grito que se expandiu de minha garganta até minha boca ganhando voz, e eu rastejei até a porta, saindo dali tão rapidamente, corria de forma desesperada até a cama, mas não me lembro de ter deitado, eu desacordara.
— Ketheleen, acorda querida, vamos visitar sua escola nova. Pegue suas coisas. — Era minha mãe logo cedo, 5:30. Ah, não.
Limpei os olhos preguiçosamente e tive de levantar, me arrumando vaidosamente para o primeiro dia lá. Estava bonita, acho eu, mas nervosa. 
Fui apresentada a uma turma não muito grande, mas eu já podia ver olhares analisando-me de cima abaixo, como se inspecionassem ou algo do gênero, senti-me desconfortável, mas não seria tão difícil aguentar assim por alguns dias, se não fossem apenas os primeiros, os rumores a meu respeito pareciam se expandir a cada dia mais. 
Em um destes, eu perdera o controle, estava no banheiro, encostando os dedos na pia, com lágrimas aos olhos, o desespero na garganta, quase demonstrando quando vi aquele reflexo novamente, aquela velha falava algo e eu arfava de tanta raiva, mal conseguia me controlar ou raciocinar algo, tentei decifrar as palavras que saiam da boca daquela velha, eu não a ouvia... Eu me ouvia, os sussurros dela agora vinham de mim e quando apertei os lábios para parar, o espelho estourou.

Estilhaços por todo o chão e o desespero em meu coração, corri dali rapidamente, não estava ferida. Entrei na sala e me encolhi apertando-me a cadeira, fitando o professor que já entrada, ouvindo os murmúrios e sentindo na pele os olhares sobre a estranha, eu.
Uma garota, em especial, ela e seu namorado, Laura e Tyler, eram os piores, os populares, estes eram quem mais se aproveitavam de uma visão sobre mim para chacota, para acabar comigo. Ela, a loura de olhos verdes e corpo extremamente esbelto e ele, alto, cabelos negros, olhos castanhos-esverdeados, os ombros largos indicavam certa força, a simetria colocada a si. Perfeitos e cruéis.
Nas minhas tardes, eu pensava nisso, em como ser diferente, mas não foi difícil descobrir que não seria possível, até porque eles não pareciam do tipo que poderia ser mudado, eram irredutíveis. E a cada dia, eu via aquela mulher, meu reflexo, meu. Foi no sótão que encontrei uma foto, era dela, e seu nome, Amélia Freire, o nome escrito a mão, uma bela letra. A antiga dona da casa, uma bruxa... Praticante de magia negra.
Outra tarde e eu estava no sótão, parecia um belo lugar para ler aquele livro enquanto eu podia ver uma vela materializando-se a minha frente... O chão tremia de uma forma que ganhava ondulações, e eu jurava que era água, mas ao passar a mão eu nem mesmo sentia molhado, só o piso duro, ilusionista. O fogo era de verdade.

Apertei os lábios, logo havia aprendido o que eu podia fazer. Meus dons.
Nunca cheguei a ter outro contato com Amélia fora daqueles reflexos e de ver sua boca se movendo, nunca ouvi sua voz, mas uma vez eu a entendi, seus lábios formavam bem uma palavra: Vingança.
Meses depois, a formatura, eu havia desenvolvido minha magia, era uma bruxa negra. Seguira passo a passo da instrução daquele livro. E não precisava de ninguém naquela escola, ninguém. Éramos agora apenas eu e Amélia, e minha pequena vingança através de um feitiço de sedução. Tyler me desejaria esta noite...
Meu vestido era longo e preto, um negro que parecia ter sido complementado pela noite mais escura ou pelo mar mais denso, com o que ressaltava minhas formas e meus lábios tinham um tom do sangue pulsante, aliás, eu estava bela como jamais estivera.
Poucos me reconheciam com aquele visual, com aqueles olhos, aquele cabelo, aqueles lábios sedutores.
E os olhares, estavam todos em mim, femininos de inveja, e masculinos de desejo, e eu conseguira o dele aquela noite, Tyler, ele mal conseguia tirar aqueles belos olhos de mim. Aproximara-se e eu podia ler sua expressão, ele parecia checar se era mesmo eu. Eu não era mais eu há tempo demais...
Eu soube que era eu a rainha da festa no fim da noite, logo que me chamavam ao palco e quem fez questão de pegar minha mão e me acompanhar fora Tyler, ele ganhara como o rei e o seu olhar presunçoso ao resto mostrava não só vitória, mas posse, ele apanhou minha cintura para alguma foto, de forma íntima. A dança a seguir foi muito mais do que desejo, foi encanto, eu podia ver que seus olhos não se desprendiam de mim, dos meus e em seguida eu podia sentir mais de sua proximidade, queria sentir seus lábios... Eu o desejava...

E desta vez fomos interrompidos, era Laura, enfurecida, havia algo em suas mãos e só reconheci quando o líquido atingiu meu vestido e peito, era ponche. Ela pegara minha coroa gritando algo que de início não ouvi, ela jogou o objeto ao chão e pisou sobre.
— Você jamais será uma rainha! — Então ela pegou a mão de Tyler puxando-o para si. — E quem você pensa que é para tentar beijar meu namorado?
— Eu não ia ficar com ela, estávamos apenas dançando, eu jamais ficaria com essa derrotada! Acha que enlouqueci? — Um riso de escarnio emitido pelos lábios de Tyler e a repulsa tomando conta de mim. 
O ódio tomou conta da minha mente e todo o mal em mim despertou, a minha noite de rainha fora destruída,  tudo estava destruído. Ergui minha mão sem dizer nada a agressora a minha frente e então minha força fez com que todas as portas e janelas fossem fechadas, impedindo a saída de qualquer um que estivesse ou não me observando. E as luzes apagaram, eu caí de joelhos e meus dedos se apoiaram ao chão, eu sabia que estava dizendo algo, mesmo que nem mesma eu entendesse, Amélia estava dizendo, estava me defendendo, me vingando. Ela me protegia
A força, as trevas, se tornaram novamente aquela fumaça que eu nem mesmo precisei abrir os olhos para ver, as luzes haviam acendido, mas meus olhos permaneciam fechados, ergui então a cabeça e abri os lábios, esperando para engolir de todo aquele mal em minha alma, sentia entrando por dentro e tomando conta de parte da minha alma, inconscientemente meu corpo estava sendo erguido, eu não sentia mais o peso de meu cabelo sobre meus ombros, estavam levantando, antes eles e depois meu corpo que estava sendo erguido e possuído, quando abri meus olhos, fitava o teto, eu imaginava como estava minha aparência agora...
Só importava a vingança.
Voltei meus olhos a todos no salão, que estava aterrorizados, inclusive Tyler e Laura, que estavam  boquiabertos, ergui as mãos suavemente, o poder em meu corpo dominava minha mente, a voz soava por minha boca não só me pertencia. As palavras mudaram desta vez, era outra parte da magia, esta era letal.
Minhas mãos estavam juntas e fechadas, quase que inconscientemente e quando eu voltei os olhos para todos, estas se abriram e quando se voltaram a eles, eu pude ver todo o salão a explodir, levando consigo no fogo cada alma, exceto a minha, que agora absorvia cada uma como um gole de vinho. 
Eu sempre quis algo dessas pessoas, ser como elas, mas agora todas estavam em mim.


                                    — Tema criado por Rubens Calchi, desenvolvido e escrito por Jacquelyne Goulart.

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