sexta-feira, 17 de junho de 2011

Cinco segundos

Eu estava preocupada, fitando seus olhos no meio daquela festa, com medo.
— Você esta bem? — perguntou um garoto que me viu um tanto paralisada.
Implantei um sorriso no rosto.
— Estou ótima, só preciso de ar — e assim saí dali.
Podia sentir os arrepios passando por meu corpo, sentia o frio passando por trás como um fio gelado sobre minha coluna. E senti acima de tudo, seu hálito frio em meu pescoço, perto da minha orelha.
— Por que esta fugindo, querida? — ouvi-o dizer. 
Olhei seus olhos vermelhos.
— Por que você me amedronta — respondi — O que você quer?
Senti seu braço se passando por volta da minha cintura e ele me virou fazendo-me olhar mais profundamente seus olhos.— Você sabe o que eu quero  sua pele irradiava um frio pior do que aquela noite de inverno — Eu quero provar de todos os sabores do seu sangue e da sua alma, eu quero que seja minha, eu quero concretizar nosso ósculo, para você ver que eu mudei.
— Eu sei que mudou, não é mais o homem por quem me apaixonei — rebati.
— Por favor, não tenha medo de mim, meu bem — pediu — Só quero o seu bem.
— Meu bem? Você assassinou à todos que eu amei! Se quisesse meu bem teria me deixado em paz e não continuado vindo atrás de mim!
Ele me olhou entristecido, seus olhos vermelhos molharam-se e ele abaixou-os.





— John — chamei.
— Você não entende, eu não me tornei assim por que quis — foi mais duro comigo — Você viu quem me transformou, e eu não matei quem você amava por escolha, eu estava descontrolado, com sede.
Deixei o silencio prevalecer por longos minutos.
— Esta noite, eu vou embora se você não me quiser mais — prometeu pegando minha mão e a beijando, seus olhos mudaram de cor quando sentio o cheiro da minha pele.

Aquilo me assustou.
— Você não me quer, você quer ao meu sangue — concluí — Assim viverá eternamente não é?
— Como pode duvidar do meu amor?
Mas em seus olhos eu via a mentira. Soltei-me dele e corri até o carro, abri e acelerei, mas lá estava ele ao meu lado, quando o vi eu gritei de susto e ele tinha um pano em suas mãos.
— Eu não queria ter que fazer isso, minha querida, mas você não me da opções — quando ele colocou aquele pano sobre meu rosto eu inalei e desmaiei. Não sei por quanto tempo fiquei desacordada, mas acordei em um lugar sombrio, escuro e com muita névoa. 

Absurdamente assustador. Olhei para os lados sem saber onde estava, não o vi, o que me assustou mais ainda.
— Ah que bom que acordou, aqui fora é muito frio, deixe-me te mostrar nossa casinha — pegou minhas mãos que estavam amarradas.
— John, me deixa ir embora! — berrei tentando me segurar em alguma árvore e resistir a força dele.
— Fique calma — passou seus dedos no meu cabelo devagar e eu senti uma certa calma enquanto olhava em seus olhos, apesar de vermelhos ainda me lembravam do quanto o amei um dia — Pare de tentar resistir a mim, minha linda, sabe que nada conseguirá. Sou três vezes mais forte que um humano, lembra-se?
Abaixei os olhos e ele pegou meu queixo.
— Esta noite vou fazer nosso ritual, você será minha para sempre, pode imaginar que maravilhoso será? Lhe darei todos os dias café da manhã, com aquela torta que você gosta que eu faço, hein? — deu-me aquele seu  sorriso encantador.
Não falei nada, mas eu sabia que nada adiantaria, John sempre fora um cara muito persistente, por isso me apaixonei por ele e por isto que agora estava o odiando tanto. 
Ele me puxou com delicadeza e eu pude ver a "casinha", era bonita e grande, não havia nem sinal do meu carro por perto e muito menos de uma alma viva.

Entramos. Ele sorrio me fazendo sentar na cadeira da mesa de madeira da cozinha, era tudo tão bonito e tinha um cheiro agradável e familiar que eu não reconhecia.
Quando ele desamarrou meus pulsos eu me afastei o máximo possível dele, conseguia me movimentar melhor, mas ele me fechou contra a parede.
— Eu sei brincar de esconde-esconde, meu amor, se quiser se esconder nós brincamos — beijou meu rosto e pegou minha cintura.
— John, me solta — exigi com o tom de voz controlado, ele soltou minha cintura e olhou meus olhos — Me leve pra casa.
— Esta em casa — deu um riso gutural e pegou minha mão subindo as escadas, me abraçou e eu comecei a me debater e bater nele, mas isto parecia não afetá-lo — Ei, meu bem, isto não dói, pode parar, vai se machucar assim.
E pegou velas, fez um circulo no chão, eu chorava de pavor.
— John, não, por favor — caí no chão e ele me empurrou para o centro das velhas — John!
Ele me acariciou ficando junto a mim ali.
— Calma — sussurrava e de repente mordeu meu pescoço, doeu muito.
Enquanto meu pescoço ardia e ele sugava meu sangue eu me deitei pra trás e estiquei meus dedos e procurei no chão algo, eu sabia que tinha muito pouco tempo antes que ele completasse o ciclo com um ósculo. Bati velas em sua cabeça tentando fazer ele me soltar e ouvi um instalo. Minhas veias ficaram negras, era o efeito de seu veneno misturado ao meu sangue que o alimentava e então apanhei um vidro, era um globo-de-neve, que eu ganhara no natal passado. 
Juntei toda minha coragem e vi minhas veias ficarem vermelhas, só tinha cinco segundos para fazer alguma coisa, com toda minha garra e força eu bati aquele globo em sua cabeça e ele me soltou, olhou meus olhos, seus olhos vermelhos se arregalaram, sua respiração acelerou muito e eu arfei de dor.
— Como... Você... Pôde..? — ele disse com muita dificuldade e passou os dedos em sua cabeça, sangrava.
E seu corpo morto caiu sobre mim.
Estava em desespero, horrorizada, tremia de frio e medo, levantei jogando seu corpo para o lado e chorando mais do que antes. Corri ao espelho temendo o pior, havia me livrado de John, de sua compulsividade e obsessão, mas por questão de cinco segundos havia sido aprisionada por sua maldição.

Eu era como ele. 

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